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04 setembro, 2014

Dica do dia : Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago

     Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago relata uma situação ficcional sobre uma população de uma determinada cidade que se vê acometida por uma epidemia repentina e inédita, que ocasiona “cegueira branca”. A população é infectada aos poucos e todos aqueles atingidos pela cegueira são isolados em um sanatório desativado, sob a alegação governamental de que tal ação tratar-se-ia de medida de segurança no país. No local, as condições são sub-humanas, porém neste mesmo local onde estas pessoas estão refugiadas, encontra-se uma mulher que não foi acometida pela tal “cegueira branca” (ela é esposa de um oftalmologista que foi infectado pela doença e, durante o tempo que por lá fica solidariza-se com o grupo e trabalha em prol da coletividade, seja cuidando da higiene alheia, seja guiando as pessoas, ou ainda, realizando outras atividades em benefício do grupo). No início ninguém sabe que a mulher enxerga, pois ao perceber que o marido seria encaminhado à área de isolamento, ela diz também não enxergar.
O filme contém cenas fortes, e uma delas é quando os “dominantes” em uma das alas - que racionava a comida no local - resolve exigir as mulheres da outra ala como forma de pagamento, uma vez que, joias, relógios e outros bens já haviam sido esgotados como forma de retribuição por comida. Não restaram outras alternativas a não ser ceder à proposta dos tais “dominantes” da outra ala, e após um episódio de violência sexual, a mulher que enxerga decide matar o líder da ala exploradora, gerando uma guerra interna no local.
Depois de algum tempo todos conseguem sair do sanatório, guiados pela mulher (a única que enxerga), que percebe um estado de total desordem nas ruas. Pessoas disputando alimentos como animais e seres humanos mortos nas ruas são devorados por cães. Nesta parte é possível notar a forma que o homem é capaz de agir perante uma situação catastrófica, fica explícito as atitudes destes perante uma situação de fome, onde brigam e até mesmo matam uns aos outros  por comida, agindo como “animais”.
É importante ressaltar que a cegueira recorrente na obra não é uma cegueira usual, em que os cegos têm apenas a percepção da escuridão, mas sim uma cegueira “branca”, na qual constata-se uma superfície leitosa. É possível fazer uma interpretação no sentido de que as pessoas “enxergariam demais” sem que essa luz se refletisse, ou seja, o excesso de luz as cegaria. Dessa maneira procede a sociedade na atualidade: as pessoas possuem acesso a diversas informações, o saber está em toda parte, mas isso não é suficiente: se o saber é intenso, mas não há reflexão sobre ele, ocorre uma cegueira social, ou alienação. Ou seja, pode-se dizer que o saber apenas colocado à disposição, mas não utilizado funciona como excesso de luz, que ao invés de iluminar, cega. São muitos pontos na obra que permitem uma análise detalhada como, por exemplo, o atual modo de vida contemporâneo, a exclusão social, a relação com o poder, a crítica às autoridades, as alternativas para a sobrevivência, a experiência adquirida na velhice entre outras. Saramago acerta em cheio na ferida, e é possível afirmar que quem ler Ensaio sobre a Cegueira ou assistir o filme, não será mais o mesmo. No mínimo, passa a reparar tudo o que ver na tentativa de se tornar mais preocupado com as mazelas da humanidade.
“Ensaio sobre a cegueira”, não deve ser focado apenas na epidemia que é mostrada na obra, mas visto de outra forma, mostrando que só depois das pessoas voltarem a enxergar é que vão ver o mundo como realmente ele é, vivendo todos de forma harmônica depois de passarem momentos de sofrimento juntos e humanizando-se novamente. A sutileza entre o “olhar” e o “ver” permeia a visão física remetendo-a para, uma mais atenciosa, a de "reparar". Esta última poderá ser observada mesmo na cegueira.
Por fim deixo uma frase de Saramago:
 “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos”.


Até a próxima ,
Lorraine Dobrovosk

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