Menu Fixo

Menu-cat

11 setembro, 2014

Dica do dia : "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski

Dica do dia : "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski

O livro “Memórias do Subsolo” é considerado um clássico da literatura estrangeira. Dostoiévski  com sua ideia e personagem de "homem subterrâneo" legou à ficção europeia moderna um dos seus principais arquétipos, encontrado também em Kafka, Hesse, Camus e Sartre: o anti-herói morbidamente obcecado com a sua própria impotência de lidar com a realidade que o cerca. A obra traz em si muitos questionamentos tornando-se assim em um autoflagelante monólogo no qual o narrador, é caracterizado como um rebelde contrário ao materialismo e ao conformismo, discute e enfatiza sua visão negativa do mundo, e aborda as principais questões do seu tempo, constituindo uma narrativa de uma intensidade incomum. Os paradoxos são a máxima das memórias. O narrador critica e vai de encontro a tudo. Cria uma ideia e depois a destrói. Elogia uma conduta e depois a critica.
O enredo da obra é extremamente instigante e ao mesmo tempo perturbador, o personagem se define como um homem doente, que sofre do fígado, (na verdade ele imagina que tem a doença), porque sente amargura o tempo todo. A vida o irrita e ele olha de seu pequeno buraco de rato com profundo ressentimento. Tudo parece zombar de sua condição, de seu apequenamento. E como vingança, já que não consegue realizar nada concreto e mudar, se afunda cada vez mais em um mar de fel. Vem daí, certamente, sua “doença do fígado”, nada tem um gosto agradável, nenhuma situação é vivida sem esta reserva.
São muitos os pontos observados na narrativa, um deles é forma pejorativa e o ódio impotente que o personagem sente contra si mesmo, e de modo admirável, com um discurso que oscila entre esse reconhecimento e sua projeção em todas as pessoas com que trava contato.  E esse sentimento de inferioridade faz nascer um desejo compensatório de superioridade, que pode se tornar patológico. O caso do  personagem, sem dúvida alguma é esse, afinal ele insiste que seu rosto deveria demonstrar,  sobretudo inteligência, que seria uma maneira de se impor aos outros. O personagem é tão bem construído que apresenta contradições, como uma pessoa real, neste instante o que é mera ficção passa a ser real e universal.
A riquíssima complexidade do texto se deve ao que Bakhtin (Problemas da Poética de Dostoiévski) chamou de polifonia. Porque as vozes dos personagens nunca são instrumentalizadas pelo autor, não há uma tese a ser provada. Dentro dos romances do escritor russo assistimos a verdadeiros embates ideológicos, que seus personagens travam sem a certeza de quem sairá vencedor, ou mesmo se ainda vão manter seu ponto de vista depois da discussão, e esse é o diferencial das obras de Dostoiévski.
 A polifonia presente em seus romances estabelece uma visão mais humana. Os conflitos existem (a luta entre a tese e a antítese), mas nem s
empre são resolvidos. É uma maneira de pensar muito diferente. O importante, o que nos faz humanos, não é a superação da luta, como se apenas ao final da vida tivéssemos o direito de afirmar que vivemos. Nada disso, a ênfase é na luta. É isso que nos dá humanidade, que nos define e dá sentido à vida. Ou seja, Dostoiévski é um escritor que tem uma visão verdadeiramente humanista, porque não diminui a vida na tentativa de uma busca de sentido.
Segue abaixo um trecho do livro:

“Entre as recordações de cada pessoa, há coisas que ela não conta para qualquer um, somente para os amigos. Há também aquelas que ela não conta nem para os amigos, somente para si mesma e isso secretamente. Mas, finalmente, há também aquelas que o indivíduo tem medo de revelar até para si mesmo, e um homem respeitável tem coisas acumuladas em grande quantidade. E pode ser até mesmo assim: quanto mais respeitável ele é, mais coisas desse tipo ele tem acumuladas. Eu, pelo menos, só recentemente tomei coragem para recordar algumas das minhas aventuras passadas, as quais até agora tinha evitado com uma certa inquietação.”(p.50-51)

Até a próxima,
Lorraine Dobrovosk

Nenhum comentário:

Postar um comentário