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24 dezembro, 2014

NEM TODO MUNDO É FELIZ NO NATAL - Por: Ludmila Clio

NEM TODO MUNDO É FELIZ NO NATAL

 No descaso de quem amamos residem nossas maiores decepções. Tristeza nos deixa de cama, feito gripe das brabas. Mas tristeza acomete a alma, e alma de cama não pode ser tratada como uma simples gripe.
Queria entender _porque não me lembro_ do que é feito o vírus maldito e tão poderoso que paralisa e imbeciliza os adolescentes que, há bem pouco tempo, ainda eram crianças amáveis, felizes com o que tinham e adoradores de seus pais _ou mães, nesses tempos modernos de “pães”.
 A poucas semanas do Natal, a alma daquela mãe estava doente, agravando-se cada dia mais. Moravam juntas: mãe e filha. A menina, agora adolescente, naqueles rompantes estapafúrdios típicos da idade, já não tinha brilho nos olhos pela sua mãe que, como quase todas as mães, fazia de tudo pela filha. Ao contrário, a cada exortação da mãe, Íris, a filha, revirava os olhos, bufava, expressando profundo cansaço e descaso, como se sua mãe fosse da Idade Média e completamente inadequada aos seus dias.
  À medida que o ano passou e o vírus diabólico da adolescência se desenvolveu no corpo e nos olhos de Íris, um abismo se abriu entre as duas. A situação piorou quando a menina, uma ainda pífia criança, autointitulou-se madura e arrumou um namorado. Coisa triste é dividir a casa com quem mais se ama e continuar sozinho. Aquele ano _e devo dizer que nos seguintes também_ foi assim. Íris respondia a qualquer expressão de sua mãe com atos silenciosos, com olhos fumegando despeito, deboche e até certa raiva. Numa tarde de novembro, bloqueou a mãe no whatsapp, canal que mais usava para namorar. Algumas vezes chegou a fazer planos de fugir com o grande, único e verdadeiro amor de sua vida, o namorado, de 13 anos.
 Íris queria protestar. Não tocava na comida que sua mãe deixava pronta para ela. Deixava furtivamente as correspondências sobre a cômoda da sala, sem qualquer aviso. Uma vez ela chegou a tirar do varal apenas as suas roupas, deixando todas as de sua mãe lá, penduradas.
(Imagino que ingratidão de filho deve doer mais que a dor do câncer, aquela que nem morfina dá conta. Mas só imagino, não tenho filhos. E não sei se quero tê-los.)
  Em 13 anos, aquela era a primeira vez que não havia espaço para a sua mãe no Natal de Íris. Ela iria para a casa do namorado, passar o Natal com a família dele, abandonando a própria família naquele pequeno apartamento adoecido há alguns meses. “Que boba! Taca-lhe uma surra!” Diriam alguns à mãe de Íris, mas ela não suportaria ter a presença da filha à contragosto. Há vezes na vida que não há nada que podemos fazer senão esperar voltar quem amamos para cuidar de suas feridas. Deixa a menina pensar que sabe da vida, deixa ela pensar que é madura, deixa ela acreditar que é dona da verdade. Cair faz parte do processo de crescimento e essa menina optou pela dor, vai aprender e a primeira lição que a vida há de lhe ensinar é que mães nunca são desnecessárias.
   Na tarde daquele Natal, a mãe de Íris ficou muda, como há muito já estava, apenas observando de soslaio a filha, que desfilava saltitante do quarto pro banheiro, cantarolando e dando gritinhos de ansiedade. Naquela tarde sua mãe fez que não viu a filha tirando a graça das ondas de seus cabelos com aquela prancha que a deixava com cara de industrializada, tampouco deixou reparar que a menina carregava os olhos e os cílios de lápis e rímel pretos, o que a vulgarizava e tirava-lhe todo o tom pueril. Resignada, sua mãe apenas observava. É inútil descrever as dores. Para conhecê-las é mister senti-las.
  Apesar do amor infinito que a mãe de Íris sentia por ela, ela não se opôs a nada. Suspirou fundo quando ouviu a menina, já com a porta da sala entreaberta lhe dizer: “Feliz Natal, mãe”. Do corredor, podia-se ouvir a voz exultante de Íris: “Amor, daqui a pouco estou aí! Te amo!”. Sobrou naquela sala uma solidão palpável, um silêncio imperial que gritava. De qualquer cômodo daquele pequeno apartamento era possível ouvir as batidas do coração da mãe de Íris.
  À meia-noite ela partiu um pedaço do panetone que ganhara de seus patrões e se aproximou da janela. Era o primeiro Natal que não preparava a Ceia, que Íris tanto festejava todos os anos. Da janela, seu corpo refletia todas as cores dos pisca-piscas das janelas do prédio em frente ao seu. Enquanto mastigava lentamente aquele seco pedaço de panetone, ouvia os fogos de artifício e vozes muito felizes e alteradas, vindas de todos os andares e prédios próximos ao seu.
À meia-noite e cinco, a mãe de Íris se deitou. Tornou-se filha e sentiu uma saudade dilacerante de sua mãe e de todos os Natais que puderam viver juntas.

                                     Por: Ludmila Clio

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