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24 dezembro, 2014

O amigo da filha do papai Noel - por: Breno Callegari

O amigo da filha do papai Noel

     Dentre as crianças da minha geração não devo ser considerado padronizado. Nunca pretendi contato com unicórnios, fadas, gnomos e outros seres equivalentes. Muito menos acreditei em desenhos animados ou em super-heróis (isso não quer dizer que não gostava!). Nesta mesma lógica, dentro de mim, estava o sentimento sobre Papai Noel. Apesar de, durante o natal, sua cara estar estampada em todos os lugares visíveis, o bom velhinho nunca me arrancou suspiros ou deixou-me apreensivo por sua chegada triunfal pela chaminé. Acorda, Breno, nunca tivemos chaminé! O que de fato sempre me levou ao delírio eram os presentes do papai José, esse sim, fazia (e faz!) meu natal feliz.
  No entanto, tarde passada, enquanto entrevistava uma amiga para compor a personagem de um texto, fui surpreendido com uma informação que deixou escapar sem perceber: era filha do Papai Noel! Lógico que não acreditei assim de supetão e sabatinei a coitada; porém, por fim, tive certeza: a guria era mesmo filha do bom velhinho.
Ela é uma boa menina, daquelas raras companhias agradáveis. Só nos aproximamos de verdade a partir da faculdade, apesar de termos crescido no mesmo bairro e compartilharmos a mesma idade. É assolada por alguns fantasmas interiores, mas segue sua vida de cabeça erguida e embala seus dias regados à literatura e cinema (seu principal vício). Em uma de nossas conversas, chegou a dizer que eu era seu segundo escritor favorito, perdendo apenas para José Saramago. Que moral! Imagina só: EU SOU UM DOS AUTORES PREDILETOS DA FILHA DO PAPAI NOEL!

   Aproveitando os créditos que tenho com a moça, pedi que me levasse à sua casa. Não podia perder a oportunidade de flagrar Papai Noel em seu habitat natural. Ela, simpaticíssima, chamou-me na mesma hora. Deparei-me com uma casa grande carregada de muito afeto, mas nada distante de uma família convencional. Mamãe Noel, que se chamava Doralice, estava na cozinha. Nem sinal de duendes pela casa e a única rena que vi era um gato. Sim, o gato se chamava Rena. Entramos, fui apresentado à senhora Noel que me recebeu com muita simpatia e, por alguns minutos, proseamos como amigos. Quando no relógio bateu 18h45m, pela porta principal, entrou papai Noel que, a tira colo, trazia a cabeleira e a barba. Os fios eram branquíssimos e de nylon. Apesar da artificialidade da peruca a pança era, de fato, enorme e de carne (ou banha). Disse em voz alta:

– Doralice, por favor, arrume meu prato. Só tenho dez minutos. – e correu para o banheiro. Deveria estar muito apertado. A roupa vermelha sentenciava o antigo mito de que Papai Noel era patrocinado pela Coca-Cola (patrocínio que não deve render muitos frutos, pois, em conversa com a filha Noel, descobri que o bom velhinho era assalariado do shopping). Acho que esse lance de pai dos pobres não dá muito lucro. Coitado, a vida não tá fácil nem para Papai Noel.

  Apesar das descobertas e de ter o Papai Noel morando na minha cidade, no meu bairro e nunca ter tirado proveito disso, sentencio o meu contato com a família Noel pela gratidão que sinto em ser o amigo (e segundo escritor predileto) da filha do Papai Noel. Isso me basta. De resto contento-me com o papai José e o real sentido do natal: a comida, pois, diferente da crença, Jesus não é capricorniano.

Por: Breno Callegari

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