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28 junho, 2015

Entrevista com Ricardo Ferraz



    1) O que você queria ser quando crescer?
Descobri a arte através da dor quando contraí pólio aos cinco anos de idade, morando numa fazenda, sem nenhum recurso. De tanto levar agulhadas das injeções que meu pai aplicava sem nenhuma experiência, meus braços e “bum-bum”, viraram uma ferida só. Mas até que um dia encontrei minha salvação, num pedaço de papel de embrulho e um carvão de lenha, rabiscava de forma lúdica para aliviar a dor, mas minha infelicidade era quando não tinha mais espaço para o rabisco, e, para conseguir mais papel, eu chorava e dizia que queria comer pão. Desesperada pelos berros, minha mãe saia a galope em um cavalo para comprar na única venda da fazenda e, ao retornar com os pães, eu esperava ela sair do quarto e jogava os pães fora para ficar apenas com o papel. Assim começou o meu amor pela arte e já sabia o que queria ser!

             2 ) Sempre quis ser cartunista?
Sempre gostei de desenho figurativo, mas tive o gosto pelo cartum só em 1978, quando trabalhava em um jornal, informativo oficial da prefeitura, “O Momento” que ficava ao lado do mercado do bairro Amarelo. Bastante rudimentar, utilizando “tipos” - para quem não conheceu esse processo tipográfico, tinha várias letrinhas de chumbo e para usar uma foto, ou ilustração, era utilizado o “clichê” de madeira... E olhe que isso foi há trinta e sete anos. Nessa “engenhoca” eu tinha várias tarefas, fazia revisão de texto, coluna de cinema, arriscava fazer poesia e escrevia alguns contos e também fazia cartuns sobre temas diversos, menos fazer critica ao prefeito e aos seus patrocinadores de campanha! Mas me tornei talvez o primeiro cartunista brasileiro a abordar de forma critica e humorada a problemática das pessoas com deficiência em 1981, através dos cartuns que passei a publicar no jornal.  Era a única alternativa como canal de comunicação para denunciar aquele flagelo humano, que, para mim, foi uma fonte de inspiração e levar ao conhecimento da sociedade.

         3) Geralmente você publica seus cartuns em que veículo de comunicação?
Já colaborei com vários jornais e revistas de Cachoeiro além de outros estados e países. Atualmente meu trabalho é utilizado em livros didáticos das principais editoras do país, cartilhas e similares. Nas horas vagas tenho publicado no “Facebook” e blogs.

        4) Você possui livros não é? Quais são? Sobre os que eles tratam?
Tive a ideia de lançar um livro, uma coletânea dos cartuns de uma exposição itinerante. Com título “Visão e Revisão. Conceito e Pré-Conceito” lancei a 1ª edição no ano 2000, durante a realização do "XIX Congresso Mundial da Reabilitação Internacional”, realizado no Rio de Janeiro. E, graças à representatividade de congressistas do mundo inteiro, tive a oportunidade de divulgar o livro pelos cinco continentes representados. Os desenhos estão também na internet e são bastante utilizados em palestras por profissionais de diversas áreas, em livros didáticos, cartilhas educativas, jornais e outros. O livro está na 3ª edição. Lancei um livro sob título, “Bullying” Vamos Combater Esse Mal pela Raiz?”, resultado de dois anos de pesquisa, numa época  em que quase não se falava sobre o tema nas escolas e na mídia. A proposta é desmistificar essa problemática de forma didática com ênfase nas ilustrações, provocar reflexões e resgatar os valores da família e das instituições. Acho um retrocesso em tempos que se fala tanto em inclusão social, tolerância no convívio com a diversidade humana e educação inclusiva. Com essas obras publicadas conquistei uma cadeira na “Academia Cachoeirense de Letras”!



     5) Tem descoberto novos talentos?                                                                  
Como arte educador e professor de desenho artístico, encontrei nos jovens e principalmente nos mais carentes uma “pedra preciosa” que precisa ser lapidada com políticas públicas de qualidade entre outros mecanismos. A arte e o esporte são ferramentas indispensáveis como instrumento de transformação em tempos de debates sobre a redução da maioridade penal, onde a sociedade só quer punir sem apresentar propostas preventivas.

       6) Geralmente quais assuntos que você gosta de retratar nos cartuns?
Abordo temas do cotidiano e tudo que me deixa indignado. A charge e o cartum são ferramentas importantes para denunciar, sensibilizar através do humor. Gosto muito de uma frase do saudoso jornalista Paulo Francis, “Um cartum vale milhares de palavras para um povo a quem se nega as primeiras letras”!!

        7) Você busca inspiração em que? Onde?
O cartunista é como uma antena sensível e atenta a tudo que acontece desde o que aconteceu na sua rua e no mundo. É preciso ter um olhar e senso crítico e ético para abordar os assuntos relevantes ou temas transversais que não aparece na mídia. Nesse mundo louco onde não sabemos mais o que é absurdo ou realidade, infelizmente é um “prato cheio” para que o humor possa falar sério, fazendo cócegas na sensibilidade e despertar o mundo!



      8) Como seu trabalho ficou conhecido em nível nacional e internacional?
Gosto de uma frase do escritor russo, Leon Tolstoi, ”se queres ser universal, cante a sua aldeia”. Meus cartuns abordavam temas até então, invisível perante o olhar da sociedade, a exclusão social das pessoas com deficiência aqui em Cachoeiro de Itapemirim, em 1981, ao me deparar com cenas “dantescas” de jovens amarrados em suas camas e sequer conhecia a luz do sol. Levei essa problemática para o cartum de forma humorada e que culminou numa exposição itinerante que percorre o Brasil e exterior e consequentemente ganhou visibilidade em nível nacional, nos livros didáticos, nas vinhetas da Rede Globo, nas revistas internacionais e utilizado através da ONU por meio de suas agências espalhadas pelo mundo, em palestras sobre a inclusão social. Nesses 34 anos de luta por Direitos humanos entre outros valores, não quero aqui mostrar que fui um herói, um suprimem... Fiz apenas a minha parte com cidadão. Agora que a sociedade amadureceu, depois de muitas barreiras vencidas, agora cada um deve fazer a sua parte. Vamos conjugar o verbo FAZER? Encerro com uma frase que me fortalece, “Grandes são os seres humanos que, conhecedores de seus limites, tornam infinitas as suas possibilidades”! 

Alguns cartuns de Ricardo ( fonte: página pessoal do facebook)



  EQUIPE “ELEA”



              

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