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27 novembro, 2015

Crônicas de um pesadelo quase esquecido - Parte 4

Por: Nayla

Estão todos mortos - diziam os soldados, em alemão, enquanto caminhavam descuidosamente sobre os corpos. Eu estava lá, tentando de todas as formas controlar minha respiração, enquanto um deles pisava displicentemente em meus dedos. Diferentemente dos demais, eu sobrevivi, mas eles não podiam saber, ninguém podia. A essa altura dos acontecimentos ninguém era confiável, muito menos soldados desconhecidos.


Algumas horas depois, quando o som dos coturnos e fuzis se distanciaram em seus carros, o silêncio pairou sobre a imensidão. Levantei-me rapidamente e peguei entre as bagagens dos mortos todos os suprimentos que me podiam ser úteis. Um pouco de água, uma embalagem qualquer contendo algum biscoito, uma faca, uma corda e um pouco de chá. Minha perna direita tinha um corte profundo com um sangramento que se estendida pela minha coxa.  Estanquei o sangue amarrando bem firme com um pedaço de pano que encontrei. Sei que precisaria de pontos, mas não havia instrumentos necessários ali e eu não podia perder tempo com isso.
Sinto o vento soprar mais forte, olho para trás, vejo o mar. Meus cabelos castanhos voam e tocam minha pele pálida e úmida. Olho para o outro lado além das montanhas. Eu sei que chegou a hora da despedida. Não sei bem onde estou, mas sei que é longe e tenho certeza que nunca mais estarei em casa. Minhas mãos frias tocam o colar em meu pescoço, uma lágrima quente escorre no meu rosto, meus pensamentos estão com Said, mas sei que nunca mais o verei e nunca saberei se ele sobreviveu.
Não há tempo pra isso, digo a mim mesma. Coloco o colar dentro da blusa e enrolo rapidamente o véu sobre a cabeça. Ninguém pode saber quem sou, nem me reconhecer, caso contrário estarei morta. Termino de arrumar minhas coisas, acaricio o rosto de uma criança e faço uma prece pelos mortos. Sigo em frente, sem olhar para trás, sem lágrimas, como ele faria, como sempre fizemos.
Após quase um mês caminhando sozinha em terras desconhecidas finalmente avisto uma cidade aparentemente abandonada. Mas todo cuidado é pouco quando se trata de lugares assim, afinal há grupos de saqueadores por toda parte e costumam se violentos quando encontram mulheres sozinhas e não estou forte o suficiente para lutar.


O mundo não é mais o mesmo. Um século marcado por de conflitos políticos, econômicos, sociais e étnico-religiosos nos transformaram em objetos de um sistema apodrecido e fétido. Destruímos quase todos os recursos naturais e hoje água potável é artigo de luxo na torneira dos poderosos. Epidemias, fome e miséria são as marcas que carregamos na pele. Continentes inteiros foram devastados, a humanidade está se dissipando. Perdemos nossa identidade como indivíduos, como nação, como humanos.


Estamos em meio a uma guerra sem precedentes. O mundo está dividido. Grupos de Rebeldes de todas as causas estão por toda a parte, cada um lutando por seu próprio objetivo. Muitos países não existem mais, são considerados “inativos”. Seus habitantes tornaram-se eternos imigrantes, tentando encontrar abrigo em algum, lugar. A maioria não sobrevive.


Os poderosos que governam o mundo tentam controlar a situação com seu exército super armado destruindo a tudo e a todos que possam ser “ameaça” aos “cidadãos de bem”. Ah, os cidadãos de bem são a elite que habita os países considerados “ativos”. Esses lugares são constantemente vigiados, pois sempre sofrem ataques dos “rebeldes”, que sempre são mortos. Imigrantes não podem mais entrar nos países “ativos”, tem que aguardar uma solução do governo, ou seja, a morte. Algumas pessoas vivem nas fronteiras dos países ativos pois de tempos em tempos eles jogam água contaminada e restos de comida, também lançam bombas, mas isso é só um detalhe, pois não há lugar seguro, não neste planeta.

Finalmente estou num abrigo, mas não sei se isso é uma coisa boa. Foi estranho como cheguei, não havia planejado isso. Estava num beco da tal cidade abandonada quando encontrei Dani. Jovem, aparentava ter seus dezenove anos, cabelos castanhos presos numa trança mal feita, vestida num macacão, uma blusa rosa e tênis Nike encardidos. Ela pareceu assustada quando me viu. Minha primeira reação foi falar em árabe. Ela calmamente tentou se comunicar comigo, falando em português, mas eu continuei a farsa. Conheci muitos brasileiros e sempre tive bastante contato com o idioma, mas não sei por que aquele disfarce me pareceu perfeito para a ocasião.


Dani me levou para o abrigo, me deu comida e água. Eu disse a todos que me chamava Nayla e decidi que fazer a árabe assustada e frágil seria minha melhor proteção, afinal não somos bem vistos no mundo. As pessoas têm medo que possamos explodir a qualquer momento, e no meu caso, as coisas realmente poderiam explodir se alguém descobrisse quem sou.
O tal abrigo, não pode ser chamado de “lugar seguro”, pois poderia ser facilmente arrombado ou descoberto. O lugar é escuro e úmido. Quando cheguei a comida e a água já eram escassas, o que me levava a crer que logo teremos que sair daqui, então temos que racionar tudo. No total somos oito pessoas, não posso dizer que as melhores companhias para o fim do mundo.
Dani é a mais falante e mais ansiosa também, anda sempre de um lado pro outro, roendo as unhas e enrolando os cabelos. Por enquanto é a pessoa que tenho mais próxima, afinal ela me trouxe pra cá. Sinto-me um pouco desconfortável de ter que mentir pra ela, mas é necessário pra sua própria segurança.
Íris é uma jornalista, ela é jovem e bonita. O olhar compenetrado atrás dos óculos está sempre procurando respostas e soluções em seus equipamentos tecnológicos sucateados. Ela se considera a líder do grupo, apesar de muitos simplesmente ignorarem o fato de haver uma liderança ou um grupo.
Aparentemente há uma tensão entre Iris e Marcos, mas ainda não sei bem o que é. Às vezes eles discutem, mas estão sempre juntos. Talvez ele esteja apaixonado por ela. Não sei muito sobre Marcos, apenas que ele tem duas mães maravilhosas e se orgulha muito disso, mesmo tendo sofrido com discriminação durante grande parte de sua vida. Ele é um militante da causa LGBTS.
 Felipe sempre tenta entrar no meio das conversas acaloradas de Íris e Marcos dando algum palpite ou falando de uma ideia mirabolante que ele viu na internet ou em algum seriado. Ele parece bem nerd, mas ninguém da importância ao que ele diz. É só um adolescente, diz Íris sempre que ele fala. A Carolina passa os dias fazendo suas orações. Ela é muito religiosa e acredita que tudo o que está acontecendo é um castigo divino pelo pecado humano.
Além desses, tem o Leonardo, que um tipinho bem particular. Metido a galã, vive com os botões da única camisa já desgastada abertos, tentando seduzir alguém com seu suposto abdômen sarado. É engraçado como ele insiste em arrumar o topete loiro todas as manhãs no único pedaço de espelho que temos. Vive jogando seu suposto charme para Dani. Chega a ser engraçado ver como ela se irrita.
Aparentemente Indiferentes a tudo estão Julia e Lucas que são dependentes químicos. Passam os dias se drogando com qualquer coisa que encontram. Parecem alienados, mas cada um tem sua própria forma de lidar com a situação. Assim como a comida suas drogas também estão acabando e não saberemos como eles reagirão.



Os dias se passam e tudo parece se agravar. Não temos mais comida e a convivência começa a ficar insuportável. É madrugada, em algumas horas sairemos em busca de suprimentos. Tudo lá em cima parece calmo e silencioso, até que um ruído agudo e ensurdecedor nos surpreende. Todos se deitam no chão esperando o desconhecido. Seguro firme a minha faca. Tenho em mim uma única certeza: preciso sair daqui.

Autor do capítulo: Clege Rocha

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