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02 dezembro, 2015

Crônicas de um pesadelo quase esquecido – Parte 5

Outubro, 2020  

   por : Marcos



Algo horrível está acontecendo. O mundo está tomado por uma grande guerra. Talvez a Grande Guerra. Maior que a primeira e segunda Guerras Mundial. E pensar que essa desgraça toda ocorre por nossa culpa. Por algo que, por muito tempo, banalizamos, que pensamos que nunca acabaria. Mas nos enganamos. A água que pensamos ser eterna, e esbanjamos por aí, gastamos atoa, acabou. Queria que isso tudo fosse uma pesadelo. Que eu acordasse e tudo voltasse a ser como era antes. Mas pena isso ser real. Triste realidade.


Estou preso nesse buraco com algumas pessoas que nunca vi na vida. Alguns drogados, outros metidos a espertalhões. Sou obrigado a conviver com eles pois quero continuar vivo. Somos o que “sobrou” da espécie humana. Os outros que restaram procuram por grupos sobreviventes, como nós, para exterminá-los. Repito: Isso é um pesadelo! Penso melhor. Isso não é um pesadelo, pois se fosse meu desejo de acordar e tudo estar bem seria realizado, mas, infelizmente, quando eu acordar a guerra estará acontecendo.
A menos de que seja como no filme do Fred Kruger e isso seja um pesadelo onde eu esteja preso e não consigo acordar, logo eu estarei fugindo da morte brutal como os personagens do filme. Mas não. Isso não é um pesadelo. Retifico minha fala: Isso é um inferno.


Acordo e vejo que estão se preparando para trocar de esconderijo. Não sei se isso seria uma boa ideia. Pode haver alguém do lado de fora pronto para matar-nos. Mas precisamos sair. Nossa comida e a pouca água que restou está no final. Temos de sair e procurar por mais e temos de ser rápidos.

- Aonde vamos? Pergunto.

- Há alguns quilômetros daqui temos uma rua que esta destruída, tem escombros por todo lado, mas é nossa última chance, de passar por um antigo bairro onde tinha uma feira, bares, restaurantes, supermercados e pagarmos os alimentos que precisamos. – Contou Íris.

Arrumamos nossas coisas e saímos de lá, seguindo os planos de Íris. Eu sentia falta das minhas mães. Sim, mães. No plural. Fui criado por duas mulheres lindas e fortes, que mesmo com todas as dificuldades enfrentadas nunca me abandonaram e, me ensinaram o que é o amor de verdade. Eu, um marmanjo do jeito que sou estar sentindo falta das “mamães” não é um sinal de fraqueza,  mas tudo o que sou devo à elas, e sei que onde seja o lugar que elas estejam, elas estarão orgulhosas de mim, pois estou sendo forte e resistindo as ameaças, assim como elas me ensinaram. 
Estávamos andando a algum tempo, e eu sentia que estávamos sendo observados, mas não disse nada, pois, não queria assustar meus companheiros de inferno. Chegamos ao local. Dividimo-nos em dois grupos menores para poder pegar os alimentos. Felipe, Nayla e Carol foram para a feira. Íris, Leonardo e eu fomos para o supermercado.

O local estava bem vazio e escuro. Já haviam saqueado grande parte dos suprimentos. A sensação de que alguém estava nos vigiando continuava. Dessa vez não me contive e comentei:

- Acho que tem alguém atrás de nós.
- Você está ficando paranoico, cara! Disse o Léo.
- Verdade, não vi ninguém nos seguindo. Pare de inventar bobeiras para nos assustar. Esbravejou Íris.
- Beleza, não está mais aqui quem falou! Eu disse.
Fiquei nervoso, mas não quis demonstrar nada. Saí de perto deles em busca de algo que me lembrasse da infância: aquele potinho de pudim de chocolate. Deveria estar na seção do frios, que ficava no outro lado do mercado. Não me importei e deixei os dois para lá e fui atrás do meu pudim.
Quando já estava bem afastado deles, deixei algumas lágrimas escaparem de meus olhos. Enjuguei meu rosto com as costas da minha mão e continuei meu trajeto. Ouvi barulho de tiro. Porra, pensei, é agora que eu morro. Corri e me escondi. Alguns minutos se passaram e o local estava um verdadeiro silêncio. Ouvi alguns passos vindo em minha direção, falando:

- Marcos, onde é que você está?

Era uma voz feminina, bem familiar. Saí do meu esconderijo, e vi Íris, mancando, e carregando uma arma na mão. Corri e ajudei-a. Percebi que ela tinha levado um tiro na perna e estava perdendo muito sangue. Há alguns anos, comecei a cursar medicina, mas logo abandonei. Ainda lembrava de algumas coisas de emergência. Tirei meu casaco e amarrei em sua perna para estancar a hemorragia.
Voltei minha atenção para a mão dela e de novo percebi a arma. Perguntei o que tinha acontecido. Ela me explicou que um homem entrou no mercado e começou a atirar em sua direção e do Leonardo. Me disse também que ele havia lutado com o homem, e perdera o Léo de vista. Ela recebeu um tiro na perna, mas conseguiu ganhar a luta e o matou.

Agora éramos só Íris e eu ali freados pelo medo e sensação de abandono. Ainda precisava achar o restante do grupo. Sem falar na Dani que não temos notícias. E algo estranho aconteceu. Eu não me importaria de morrer se ela estivesse ao meu lado. Acho que estava me apaixonando. Droga! Isso deveria ser um pesadelo ...

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