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12 outubro, 2016

Somos mais um dado numérico


   1.2.3.4.5.6.7.8.9.10 segundos, se eu tivesse cronometrado o tempo do meu encontro com aqueles rapazes. Pode até ser esse o tempo dos homens, mas no relógio de minha reconstituição dos fatos, o incidente pareceu que durou horas e horas. Mas, foram segundos.



        Domingo apático, carros barulhentos, pessoas conversando, um vai e vem. Um vem e vai, o padre dando a benção final, a garçonete entregando os pedidos, o cliente conferindo o troco. Carros, ônibus, carretas, carros e mais carros. Motocicletas, motoqueiros, motobandidos, um assalto! Sim, eles estavam armados. Sim, não deu tempo de gritar. Sim, foi um deslize. Sim - eu já lhe respondo prevendo seus julgamentos do tipo “você sabe como essa cidade é perigosa, por que ficou com o celular em mãos”? Sim, eu posso lhe mandar para um lugar chamado puta que o pariu?!
        Acho que as pessoas esquecem que o celular não é somente um objeto de entretenimento, mas também um objeto de necessidade. Será que nós que temos que nos culpar por usarmos os celulares em público? Será que temos que sentir remorso por usufruir de um bem material que custou tanto para conseguir? Ops, quem são as vítimas nessa sociedade miserável? Somos, nós, pessoas honestas e trabalhadoras? Ou serão eles – talvez vítimas de uma família desestruturada e órfãos de carinho, sentimentos, humanidade e de alma.



        Corro. Corro. Corro. Corro por três quarteirões, ainda desorientado, parecendo até que eu havia usado uma dessas drogas alucinógenas – que dá até para ver dragões, duendes e fadas dançando de mãos dadas. Vejo vultos, ouço vozes, mas a ficha ainda não caiu. Susto, pânico, terror e medo ainda percorre minhas veias. Abro a porta da delegacia sou fintado por fardas humanas, que mesmo percebendo minha indignação, demonstram-se indiferentes. Eu era apenas mais um, quer dizer, só mais. Espero, espero, esperooooooooooooo por minutos intermináveis. A ficha cai, e o choro sai. Me descontrolo.
        Todos nós estamos sujeitos a esse tipo de evento! Nessas situações nos sentimos humilhados, nos sentimos um "zé ninguém", afinal você foi mais um e na rotina deles isso é normal. Mas, nós, não somos "eles". Nós, não somos "ninguém". Somos mais um dado numérico, na planilha do sistema, que será esquecido amanhã. Ou quem sabe, daqui meia horinha.



        Lembro-me até das palavras ácidas de Braga, afinal me senti um “silva”. Que dizia “que os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte”. Entretanto, neste caso não teve morte, e com isso, dessa vez, não acrescentei outro dado estatístico na planilha do sistema. 

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