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09 junho, 2017

Contos Descoloridos: A Caçada

- Baixando! - Exclamou ele - Agora vou poder acabar com essa raça. Essa corja da sociedade. Farei um favor ao mundo, eles terão de me agradecer.
- Pronto. Instalando.
- Abrir aplicativo.
- Hmm, registrar.
- Nome...? Caçador. Isso, um ótimo nome, pois estou indo à caça desses animais.
- Foto? Opa! Vou ao espelho tirar umas minhas. Eles não resistirão. Afinal, anos de academia tem resultados e sei que isso os atrai.



Conversava, ele, consigo mesmo.
Tirou as fotos mostrando seu físico perfeito, postou no aplicativo, mas sem mostrar o rosto, não queria se identificar. Estava tudo pronto. Agora era só partir para o ataque.
Menos de um minuto e já tinham três solicitações de conversa. Essa caçada seria fácil para ele.

- Apimentado – haha! Esse será minha primeira vítima, pensou.

“- Oi, tudo bem?
- Sim, ótimo. Gostei de você, quero saber se é apimentado mesmo.
- Com toda a certeza, você vai adorar.
- Beleza, vamos marcar”

Caçador e Apimentado marcaram em um lugar afastado da cidade, na chegada de um pequeno distrito onde moravam poucas pessoas e nenhuma saía de casa depois das 19 horas. Um lugar sem iluminação e as luzes que apareciam eram das casas afastadas do local. Um lugar perfeito para cometerem tal ato.



- Você não se importa de ser em público assim, não é? - Perguntou o Caçador.
- Nem um pouco, adoro correr riscos. Mas se bem que aqui não é tão arriscado. - Respondeu Apimentado, entre risos.
- Certo, então, vamos começar. Tire sua roupa! - Ordenou Caçador - E me espere, preciso de algo que está o carro.
Apimentado obedeceu. O lugar estava escuro. Caçador vai até o carro e pega um objeto que seu colega não reconhece.
- O que é isso? Perguntou Apimentado.
- É uma surpresinha. Encoste no carro com as mãos e de costas para mim. Ande!
- Opa, adoro essas surpresinhas.

Apimentado obedece. Caçador aproxima-se dele, levanta o misterioso objeto e bate-o com força na cabeça do outro que desmaia e cai no chão. Caçador volta ao carro e pega um punhal e enfia no coração do homem desmaiado. Após isso, vira-o e risca em seu dorso a letra “X”. Como inspiração e prêmio da caça, ele corta o pênis do homem e guarda em uma sacola.

Caçador joga-o no canto da estrada, volta ao carro e segue em direção a sua casa. Chegando lá, ele limpa o sangue dos instrumentos usados em sua caçada, apanha a sacola que estava com sua recompensa, limpa o sangue do objeto e guarda-o em um pote com formol. Vai para o seu quarto e dorme na esperança de ter a mesma sorte em sua caça do próximo dia.

Caçador acorda, no outro dia, animado para sua próxima presa. Vai à cozinha prepara um café reforçado, afinal precisaria de forças para a nova aventura. Ele estava tão animado que mal podia esperar e, ainda tomando o café, pegou seu celular à procura da próxima vítima.




Olhou vários perfis que haviam lhe mandado mensagem procurando sua melhor opção. Escolheu um perfil não tão chamativo quanto o anterior com o nome de “Discreto”. Era isso que ele queria, discrição.

Respondeu sua mensagem e marcaram o encontro para a tarde daquele dia. Discreto era casado e tinha dois filhos. A esposa estava no trabalho e as crianças na escola. Ele estava de férias, assim, tinha a casa inteira para ele.

O celular do Caçador vibrou, ele o pega e lê a mensagem:

“Discreto: Quando chegar ao prédio fale com o porteiro que é meu amigo e assim ele o deixará subir. Te espero!”

Alguns minutos se passaram, Caçador chega ao prédio de sua vítima, fala com o porteiro e sobe. Ele usava óculos de sol, para poder esconder seu rosto e dificultar um possível reconhecimento.

Ding! Dong! Soa a campainha do apê de sua vítima. Discreto abre a porta, eles se cumprimentam:

- Opa, tudo bom? Perguntou Caçador estendendo a mão.
- Tudo bom. Entra e fica à vontade. Disse Discreto, apertando a mão de Caçador.

Caçador entra e assim que Discreto dá as costas para fechar a porta, ele tira um punhal de seu bolso e apunhala a vítima por trás e bem ao lado da coluna. Discreto cai ao chão. Caçador continua o golpeando com o punhal até a morte.



Depois, como em sua primeira caça, Caçador marca o homem com um “X”, pega seu prêmio e guarda em um saco plástico. Carrega o homem morto até o quarto do casal e o coloca em cima da cama. Vai até o banheiro e limpa o sangue de suas mãos. Sai rapidamente do apartamento e volta para sua casa para guardar seu troféu.

Ainda estava cedo e tinha tempo para mais uma caçada. Pegou o celular e dessa vez não respondeu ninguém que lhe havia enviado mensagens, mas puxou assunto com um perfil novo no aplicativo.
Esse novo perfil tinha o nome de “Predador”. Caçador pensou com ele: Predador?! Hahaha! Mal sabe ele que será a presa. A minha presa. Caçador queria que sua vítima fosse o Predador por eles terem os corpos parecidos. Predador também era malhado. Caçador pensou que com um perfil assim essa caçada seria diferente, seria mais desafiadora que as anteriores.


       Eles marcaram de se encontrar a noite numa casa abandonada no bairro. Os dois moravam no mesmo bairro. Caçador foi o primeiro a chegar. Entrou no local e ficou esperando sua vítima.

Após um tempo, Predador chegou e entrou, com cautela, no lugar. Eles se cumprimentaram. Estava escuro e eles não viram os rostos um do outro. Conversaram por mais um tempo e Caçador disse:

- Sua voz não me é estranha!
- Nem a sua é estranha para mim.
Os dois, ao mesmo tempo, pegaram o celular e ligaram a lanterna.
- Você?! Disseram os dois em uníssono.

Caçador e Predador eram amigos e malhavam juntos. Os dois ficaram surpresos pois não esperavam isso. Em suas conversas, na maioria delas, eles debatiam sobre o ódio deles pelos homossexuais e exultavam sua macheza.Depois de alguns segundos de silêncio. Predador disse:

- Não sabia que você era uma bichinha, seu filho da puta! É agora que isso vai ter um fim. – E tirou um revólver que estava escondido em suas costas.
- E eu não sou, otário. Calma, isso aqui é apenas um plano pra...
Pow!

Caçador não conseguiu terminar sua fala. Predador havia acertado em cheio seu coração com um tiro e morreu na hora. Para a infelicidade de Predador, nesse exato momento, do lado de fora da casa abandonada, passava um policial que morava perto do local e estava chegando do batalhão. O policial entrou, em silêncio, na casa, aproximou-se de Predador e o acertou com uma coronhada. Predador desmaiou e foi preso.

               Chegado na delegacia, Predador foi interrogado do porquê de ter matado o outro homem e ele respondeu:

               - Ele era um viadinho de merda e eu preciso de acabar com essa raça. Ele se intitulava Caçador, mas no final ele foi minha caça. E se não fosse por esse policial eu mataria muitas outras bichas nesse mundo, transformando-o em um lugar puro. Onde os merecedores, nós héteros, poderíamos viver em paz.

               O delegado levantou e deu um tapa na cara do preso e ordenou que os guardas levassem ele para a cela. Lugar que ele passaria o resto da vida. E ainda disse:

               - Vou garantir que esse lugar seja um inferno para você, porque eu sou gay e não vou permitir que um preconceituoso como você se safe dessa... Ah, e obrigado!
               - Obrigado pelo quê? – Perguntou Predador em choque com a revelação do delegado. E pensou, intrigado, como um delegado poderia ser gay.
- Obrigado por ter se livrado do Caçador. Chegou mais cedo, para nós, a denúncia de um homem que matava homossexuais e tirava seus pênis como troféu. Ele já tinha feito duas vítimas e você seria a próxima. Pegamos o celular da última caçada dele e descobrimos seu apelido no aplicativo e estávamos em busca dele. Você poupou nosso trabalho. Agora levem-no daqui, guardas!

Em sua cela, Predador pensava no que tinha acontecido, pensava no quanto sofreria dali pra frente por ter matado um amigo que queria a mesma coisa e se arrependia do crime e da ideia de se livrar dos gays.

Agora sem seu amigo e sem liberdade, sem mais ser o Predador nem a presa. Aquilo era resultado de uma caçada e como a caça de animais ele viveria como um. Como um animal caçado e preso em cativeiro.


          Marcus da Costa, ganhador do Reality " O Roteirista", em 2014.

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