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01 junho, 2017

CONTOS DESCOLORIDOS: João Alfredo

               João Alfredo, 19 anos recém completados, negro, caçula de três irmãos, órfão de pais biológicos, neto do crime, afilhado da favela, sobrinho da violência e homossexual, não assumido, é claro.



               Desde que Pitt atendeu aquele telefone, no dia anterior, Alfredo, mais conhecido por Nego Fred, não conseguiu pegar no sono. Aquela cena não parava de se repetir na sua cabeça, como uma cena em câmera lenta. Não era possível que seu irmão tinha sido preso. Não era possível que conseguiram pegá-lo numa tocaia. Logo, seu irmão que sabia como ninguém - dar nó em pingo d'água. Nego Fred, precisava sair daquela cama, precisava sair daquele quarto, precisa subir à favela, precisava decidir a vida de muitos, afinal ele era o novo chefe do morro. Isso mesmo, chefe do morro! 

               - Nego ... Nego, você ouviu o que eu te disse, mano? – perguntou já irritado, um dos traficantes de Pitt. Responde, porra – esbravejou novamente. Po, agora você é o dono do morro, veado – disse o traficante dando tapinhas nos ombros de Alfredo.

               - E o que eu tenho que fazer? Po, Dk, eu não sei o que fazer – confessou o novo dono do morro.

               - Você vai pegar o jeito fácil – o traficante acende o cigarro e dá um trago.  Ah, e daqui a pouco a gente tira seu irmão daquele covil. Já tenho tudo na cabeça. É só forjar uma rebelião e a gente chega dominando – conta Dk, num tom de heroísmo invertido.

               Quem diria João Alfredo, órfão de pai e mãe, adotado por Dona Gracinha e Seu Tião, criado com todo amor e carinho, ao lado de seus irmãos adotivos, que não tinha casa, que dormia na rua, que brigava com os mendigos embaixo de viadutos, que pedia dinheiro no sinal, que levava um “vidro fechado” na cara, que nunca descobriu seu paradeiro, de repente, do dia pro outro, era o novo rei do pedaço. E ainda, homossexual.



               Nego Fred sempre gostou de escrever poesia, era fã de Clarice Lispector e leitor voraz de Rubem Braga, com a literatura seu lado sensível se aflorava, por isso sempre escondia seu gosto particular dos seus irmãos. O engraçado é que Nego descobriu Clarice por acaso, no meio do lixão da cidade, enquanto catava papéis pra forrar sua cama do dia. Se é que poderia ser chamado aquilo de cama? João Alfredo colocou Clarice no bolso e depois desse momento, sempre que precisava de um conselho, clamava para Clarice, como uma espécie de fada madrinha dos dias nublados e difíceis. Muitas vezes sentia-se Macabéa, porém sem ter seu momento de estrela.  

               Mas, tinha uma pessoa especial que lhe conhecia bem, sua madrinha e também mãe de leite, Rosinha, a pessoa mais doce da favela, que lhe ensinou a gostar de poesia e, principalmente, de arte. Alfredo amava arte contemporânea, não era por acaso que ele vivia no Centro Comunitário da favela. Alfredo sempre se oferecia para limpar o Centro, depois das aulas de arte de Vicente, enquanto o jovem professor ensinava técnicas de desenhos para seus alunos, João, do lado de fora, prestava atenção em cada traço marcado pelo professor.

               Não só os traços técnicos, do professor Vicente lhe chamavam a atenção, mas, principalmente, os traços físicos e sexuais, que lhe deixava meio constrangido. Vicente, branco, ruivo, de cabelos longos ( e de coque), olhos pretos, corpo franzino e um sorriso esculpido por Lilith.

                A amizade dos dois foi construída de forma simples: num dia desses, que a polícia resolveu invadir a comunidade, para prender alguns bandidos que havia trocado tiros com eles na semana anterior. Parecia dia de São Cosme e Damião, fogos para todos os lados, Vicente encerrou as aulas rapidamente, desesperadamente, pediu ajuda pra Alfredo e reuniu as crianças dentro da comunidade. No meio a uma explosão de fogos, Vicente pegou o rádio e colocou uma das clássicas batidas de Mozart, pedindo para que os alunos cochilassem, enquanto sentissem o som da música e pensarem em paisagens que poderiam nascer das batidas de Mozart.

               Por um momento, João Alfredo esqueceu que era negro, favelado, filho de traficante e órfão de pais. Sentiu-se dentro de um si uma vontade súbita de mudar o rumo de sua vida, de mudar sua condição e guiar o seu destino, queria ser dono da rosa dos ventos.

               Depois, de tamanha fuzilaria, João Alfredo resolveu acompanhar Vicente até a entrada da favela. Esse ato de simpatia tornou-se um mantra diário. Toda semana, o mesmo itinerário, os dois mais novos melhores amigos conversavam sobre todas os assuntos do universo. Negro Fred queria beijar Vicente, queria tocar-lhe, queria sentir-lhe, queria ser com Vicente, um só.           A amizade de cinema americano cresceu rapidamente, lógico sob os olhares maldosos de muitos, porém meu caro leitor, estamos no Brasil.


                                          ( Foto por Digo Costa) 

               Foi quando, num dia desses por aí, logo depois de assumir o cargo de chefe do crime. Tardezinha de chuva, daquelas garoas gostosinhas, que se tem vontade de cantar “cheiro de terra molhada”, de Sandy e Júnior. No mesmo guarda-chuva, no reflexo do mesmo sentimento censurado, no mesmo olhar cruzado, foi que num relance de olhar, um dois pivetes da favela, de cabelo descolorido, negro, magrelo, olhos avantajados, olhos sem vida como dos zumbis de The Walking Dead, fotografou no ar aquela cena – hedionda, ali mesmo, embaixo do guarda-chuva.

               Alfredo cuspiu o beijo de Vicente, o demonizou, o criticou, o menosprezou, envenenou seu coração.

               - Suma de perto de mim! Eu nunca mais quero lhe ver! Nunca mais – esbravejou Nego Fred, apertando fortemente os braços de Vicente, que se assustara com a reação de Nego.

               Vicente chorava tanto, que suas lágrimas se confundiam com as gotas da chuva. Alfedo precisava cortar o mau pela raiz, era perigoso demais Vicente ser exposto assim, por conta dele. Era demais ele expor assim sua selvageria sexual, seus desejos íntimos. Era demais ...

               Foi demais, quando na frente da quadrilha toda, com uns quinze moleques ao seu redor, de repente um dos homens mais velhos, que estava armado, com uma artilharia da pesada, jogou o infeliz menino, que por acaso tinha presenciado, por infelicidade aquela cena.

           - É esse patrão, o fdp de merda? – perguntou um dos homens de Nego Fred, com intenções de tortura.

               Nego Fred acenou com a cabeça que sim.

                Foi tão rápido, que só deu pra vê o menino zumbi, caindo no chão, pincelando o céu da favela de vermelho vívido.

               Porém, não parou por aí. Alfredo não podia deixar nenhuma marca de sua boialagem exposta por aí. Como os outros iriam lhe respeitar? Como que ele iria defender a honra da família que lhe acolheu? Desceu junto com uma penca de homens zumbis até o Centro, onde depredaram tudo, todos os quadros e armários - assim como fizera com o coração de Alfredo.


               Depois desse dia Alfredo morreu, somente o Alfredo, pois Nego Fred estava ali, pai de família, esposo de Maria Rita de Cássia, pai de Sara, Samara e Samuel, dono do crime, e ainda, homossexual. 

3 comentários:

  1. Caraca.... to escrevendo com o pé pq to batendo palmas! Ao mesmo tempo que esse texto é uma triste realidade mista de violência e delicadeza... poxa... reflexivo!

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    1. Que bom que gostou Bia! Sim, uma pitada de olhar poético, numa triste realidade, apesar de ímpar, ainda é realidade!

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  2. Bem tu garoto, cada palavra no lugar certo com intenções incertas. Gosto muito de ler coisas tão reais que se tornam surreais....

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