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30 junho, 2017

CONTOS DESCOLORIDOS: Um inseto na teia – Parte 2 , por Ailson Lovato

    
CONTINUA ....

        A gente cresce com medo da polícia. Boa parte da infância somos amedrontados quando uma das viaturas passa com a sirene ligada e as luzes ofuscando nossos olhos. Mas agora eu sou um homem. Um homem, aliás, um policial, estava ali, me pressionando contra a parede e me beijando. Eu estava sendo abusado e precisava fazer alguma coisa.



               Sim, eu sou homossexual assumido, mas a atitude dele era invasiva. Interrompendo o beijo, o empurrei contra a parede usando a força do meu corpo e comecei a gritar por socorro. Ele tapava a minha boca e dizia para eu ficar quieto. Eu estava com medo, ele era muito mais forte que eu. Rapidamente chegaram alguns seguranças:

- O que está acontecendo aqui? – um deles perguntou.

- Eu sou policial – disse, mostrando a identificação – estou há um tempo investigando esse rapaz por tráfico, mas agora que eu o peguei a gente vai ter uma conversinha.

- Ele está mentindo. Eu estava sendo abusado. Ele me prendeu e começou a me agarrar. Eu sou estudante, olha na minha mochila.

- A gente vai olhar sim, na delegacia – Oliver disse me tirando do banheiro enquanto eu gritava e esperneava.

- Eu não tenho outra opção – ele disse aos seguranças. Segundos depois ele me deu um soco e eu apaguei.

               Você que está lendo essa carta deve estar achando isso uma história de ficção. Oliver parecia um cara legal. Quando acordei, lembrei da tarde no bar, da conversa que tivemos e do suco que tomamos. Ao olhar pro lado, percebi que estava no banco de trás da viatura, em uma rua deserta e pouco iluminada. Já era noite. Meu corpo estava cansado e doendo um pouco. Oliver estava ali, sentado no banco da frente e ao lado um outro policial.



- Acordou, princesa? – ele disse.

- O que você quer de mim? Por que está fazendo isso? Eu vou denunciar você – respondi.

- Me denunciar? Pra quem? Pra polícia? – ele disse rindo.

- A gente já teve de você o que queria – o amigo completou, me mostrando um celular com fotos e vídeos. Eles abusaram de mim. Ainda mais. Eu sentia raiva de Oliver. Eu queria esquecer aquele homem simpático que me ofereceu carona e me pagou um suco durante uma conversa.

- Você é um viado enrustido – eu gritei – você me prendeu no shopping e me beijou. Podia ter sido mais fácil se você me chamasse pra sair. O seu amigo sabe disso, que você, por baixo dessa farda e da pose de machão, é uma bicha enrustida?

- Nós somos aranhas e você caiu na nossa teia. Quem vai acreditar em você? – disse o outro policial. Afinal, você não vai querer que as suas fotos ou esses vídeos vazem por aí, não é mesmo?

- A gente ta de boa – respondeu Oliver – nosso rosto não apareceu. E sim, meu amigo aqui sabe que eu curto outros homens. Foi você, Rodrigo, que complicou tudo quando começou a gritar no shopping. Eu já vinha observando você durante os últimos dias. Você me parecia um cara legal e eu queria te conhecer e me aproximar de você. Mas você agora sabe o meu segredo. Será que a gente deixa você ir?

-Eu estou com muita raiva de você – respondi – mas eu não vou contar nada a ninguém, eu não tenho provas.

Eu queria sair dali, correr e esquecer tudo aquilo. Eu só queria ir pra casa e tomar um banho. Eu queria dormir e acordar desse pesadelo.

-Você vai levantar, ficar de costas, debruçado, eu vou abrir as algemas e você vai sair andando calmamente. Eu sei onde você mora, eu posso ir atrás de você – disse Oliver.

-É sério? – perguntou o outro policial – eu queria brincar um pouco mais com ele.

-A gente arranja outro amanhã – disse Oliver.

Ele saiu do carro, abriu a porta, me empurrou e soltou as algemas.

-Vai, quietinho... – sussurrou no meu ouvido.

               Rodrigo andou poucos metros e depois mais à frente corria e gritava. O tiro em suas costas foi certeiro. Eu não tive escolha. Ele caiu no chão, imóvel. Eu sou um assassino, confesso. Rodrigo era escandaloso demais. Eu, apesar de gay, sou discreto. Se quer ser assim, que aja como homem, que seja como homem, que não dê pinta por aí. Talvez não exista esse lance de shopping, conversa no barzinho, nada disso. Essa foi a forma que encontrei pra dar motivo ao fim dele.



               Aliás, meu nome não é Oliver. Eu inventei esse nome para que você pudesse entender como tudo aconteceu. Talvez eu seja o policial que irá atender a ocorrência, quando você encontrar essa carta ao lado do corpo do Rodrigo. Isso você não vai saber. Eu posso estar te observando agora de dentro da minha viatura. Se eu fosse você, pediria ajuda, lia e jogava fora essa carta em que assumo minha culpa. Não vai querer ser a próxima a cair na minha teia. E caso um dia você precise, eu te dou uma carona, na volta pra casa. 

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