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18 julho, 2017

Análise de ‘‘A Terceira Margem do Rio’’ e ‘‘O Espelho’’, de Guimarães Rosa


            Eleanáticos, como você estão? No último domingo, dia 16 de julho, muitos estudantes do estado do RJ realizaram a primeira etapa do exame da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, que, nesse ano, voltou a cobrar a leitura de livros. E pra essa primeira prova foram cobrados os contos ‘‘A terceira margem do rio’’ e ‘‘O espelho’’, ambos do livro Pequenas Estórias, de Guimarães Rosa, um grande escritor brasileiro do século passado. Nesse texto, farei uma análise dos dois contos, muito diferentes, metafóricos e belíssimos. Caso você queira ler os textos, poderá encontrá-los em PDF em diversos sites gratuitamente. Eles são pequenos, de rápida leitura.



Alguns estudiosos da Literatura Brasileira, como o professor Flávio Carneiro, da própria UERJ, relacionam as experiências presentes no livro Primeiras Estórias à ideia de primeiridade, proposta por Charles Peirce, que seria o espanto, a primeira impressão causada, principalmente, por explorarem a figura da criança.

Vou começar com A terceira margem do rio! O conto, narrado em primeira pessoa, é um dos mais famosos do autor e apresenta diferentes hipóteses. Dentre elas, há uma intertextualidade bíblica com Noé, que também construiu uma embarcação, uma que compreende as margens do rio como realidade e ficção, outra que entende a obra sob aspecto espiritualista, etc. Enfim, cada leitor poderá fazer a sua interpretação do conto. Até porque cada rio só tem duas margens, então o que seria a terceira margem proposta no título.



A obra se inicia no ambiente familiar, quando o pai do protagonista, que também é o narrador, parte, em uma canoa, remando ‘‘rio abaixo, rio a fora, rio adentro’’. Tal atitude repentina mexe com a família, principalmente com o menino, que tenta manter a comunicação com o pai, seja levando alimento e mantimentos ou até propondo ficar na canoa, porém, sempre com as refutações do pai. Com o tempo, a família se muda da fazenda onde morava e cada membro toma seus rumos na vida: os irmãos do protagonista se mudam, levando a mãe, porém ele é o único que permanece. A identificação com o pai é presente desde o início da obra, mas também se faz presente quando o narrador conta os ensinamentos de seu pai.

Guimarães Rosa ficou marcado na literatura brasileira, sobretudo, pela sua posição diante da língua, chegando a afirmar que somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. Dessa forma, recorria a neologismos, como ‘‘se-ir’’ (passagem de tempo), e inversões pouco usuais de termos, explorando novos sentidos em seus textos. Em ‘‘A terceira margem do rio’’, esses e outros recursos estilísticos são utilizados. As frases curtas contribuem para um ritmo lento de leitura, como em: ‘‘Ele me escutou. Ficou em pé. ’’ O estilo poético, sonoro também é explorado, como se percebe no trecho ‘‘e o rio-rio-rio,o rio – pondo perpétuo.’’



     Para entender esse conto, é necessário bastante atenção e concentração do leitor, pois é uma obra densa e bastante conotativa, ou seja, não é formada pelos elementos denotativos, com os sentidos reais, mas sim com os sentidos figurados, assim como boa parte dos outros contos desse livro.

            Agora é a hora do conto O espelho! Você conhece o conto ‘‘O espelho’’, de Machado de Assis? Se não conhece, busque conhecê-lo antes de ler o de Guimarães Rosa, que possui uma intertextualidade direta com o de Machado. Ocupando a décima primeira posição do total de 21 no livro, ou seja, exatamente no meio.

           Diferente do primeiro conto, este possui um caráter muito mais reflexivo, psicológico e até complexo, tornando a sua leitura densa, por meio de uma linguagem mais rebuscada, com termos científicos e também filosóficos. O conto se inicia com o narrador não se reconhecendo diante do espelho, sentindo repulsa da imagem que vê, buscando compreender a si mesmo. Dessa forma, o narrador parece conversar com o leitor, como no trecho ‘‘Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência’’, ou seja, logo na primeira frase, o leitor é avisado que não irá narrar uma aventura, simples, linear, fácil, mas sim um relato de uma experiência muito reflexiva. Ao longo do texto, constrói-se uma imagem do espelho como um objeto ambíguo, apenas um signo do que se mostra, podendo enganar as pessoas.



         Durante todo o texto, o narrador procura convencer o leitor com seus argumentos, valendo-se da persuasão como principal recurso. Outra característica marcante é a encenação de um diálogo entre leitor e narrador, como se percebe no final do texto, no qual o narrador faz perguntas ao leitor. Esse conto ‘‘brinca’’ com as verdades, servindo como um meio de análise do real, destruindo as máscaras e fazendo com que surja no espelho a imagem da verdadeira pessoa, não do ‘‘monstro’’, como narra o protagonista. Assim como no conto de Machado de Assis, não há uma conclusão, logo, a obra é terminada ainda em aberto.

Espero que tenham gostado dessa simples análise desses grandes e maravilhosos contos de Rosa. Caso você queira conferir as questões sobre eles que foram cobradas no vestibular da UERJ, como mencionei no início, acesse AQUI, conferindo as questões 18 a 25.  Uma ótima semana para todos!




Um comentário:

  1. Estava comentando com uma amiga sobre os textos do Guimarães noutro dia. A terceira margem do rio é bem instigante, li na graduação. É um texto que rende muuuitas discussões.
    Seu blog é lindo, fulô :)

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