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07 setembro, 2017

Entrevista com Cristina Pezel

Residente da cidade de Niterói (RJ), a autora Cristina Pezel vem colhendo bons frutos de seus trabalhos literários. Esse ano a escritora apresentou e ainda apresentará nesse feriadão o seu trabalho na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, um grande evento literário e cultural. Escrevendo desde 2013, ela participou de vários concursos de poesias e contos, chegando a ganhar alguns deles. Nessa entrevista para o Entrelinhas e Afins, Cristina conta para todo o público um pouco sobre seu processo de escrita, seus projetos, participação na Bienal e muito mais.


1) Cristina, inicialmente, muito obrigado por ter aceito o meu convite para esse bate papo para o Entrelinhas e Afins. Para começar, gostaria de saber o que te levou a começar a escrever, ainda em 2013. E queria saber também como era a sua vida e o seu trabalho antes de publicar suas obras.
Eu é que agradeço a oportunidade de conversar com vocês!
Gosto de escrever desde criança, mas há muitos anos não escrevia, assoberbada com vários compromissos da vida. No entanto, por causa de uma doença na família, encontrei na escrita um refúgio que me ajudou a enfrentar tudo de uma forma melhor. Lamento não ter começado a escrever há mais tempo. Mas agora que mergulhei nesse universo, estou muito feliz e realizada.
Como eu trabalho e tenho filhos, o tempo que tenho para escrever é à noite, ou quando estou num transporte público, ou quando estou numa sala de espera, ou quando acordo antes que todo mundo... O que mudou de antes para agora foi isso: meu tempo livre é quase todo dedicado à carreira de escritora que estou construindo.

2) Em 2014 e 2015, você se dedicou mais aos contos e poesias e participou de concursos como o Prêmio Miró de Literatura e o Cataratas. Conte um pouco mais sobre esses concursos e os seus prêmios neles.
Participar desses concursos, principalmente os de contos, foi o que me fez pensar em prosseguir com a carreira de escritora. Ao começar a ganhar premiações, percebi que eu poderia me aperfeiçoar e confiar na minha escrita e propor-me desafios maiores. Aconteceu assim: comecei a escrever muitos contos e poesias. Houve uma lacuna em que eu precisei parar de escrever porque tive uma complicação com um braço quebrado que me impediu de usar o computador por quase um ano. Foi nessa época que comecei a enviar meus escritos engavetados a vários concursos literários, e fui ganhando alguns prêmios. Nesse período aprofundei bastante a pesquisa sobre o universo fantástico para O MUNDO DE QUATUORIAN, que eu já havia começado a escrever também, mas que estava numa pausa.

3) Para você, como foi a sensação de ter seu trabalho reconhecido em prêmios de caráter nacional? Como você os enxerga?
Às vezes fica difícil “fazer cair a ficha”. Foi uma felicidade imensa. Em alguns concursos precisei viajar para receber o prêmio, conheci escritores e locais novos e fui me apaixonando pelo mundo da escrita. O reconhecimento me deu gás para mergulhar de vez na escrita do livro que eu havia começado.

4) Esse ano você lançou o seu livro infanto-juvenil O Mistério da Trave (foto acima), pela Editora Bambolê. De que trata essa obra? Quais foram suas principais intenções com ela?
Esta obra é um infantojuvenil que trata de viagem no tempo. Diego adora jogar futebol e numa situação inusitada se vê jogado para o passado, onde conhece seu pai quando criança e trava uma amizade forte com ele. Uma série de situações acontecem e ele vai mais para o passado ainda, onde conhece sua avó ainda criança também. O livro aborda fatos históricos, diferenças culturais, diferença nos meios de transporte, equipamentos eletrônicos... fala ainda de futebol e amizade. Enfim, o “Mistério da Trave” é o que Diego precisa desvendar para voltar ao seu tempo atual... o livro tem belíssimas ilustrações do artista Waldomiro Neto, de Londrina-PR.


5)  Você também lançou o primeiro volume do livro ''O Mundo de Quatuorian'', uma obra de ficção. Como foi para você narrar acontecimentos sobrenaturais e fantásticos? Qual sua relação com esse universo?
Sempre gostei muito de narrativas fantásticas, adoro “viver” nesses mundos! Sou fã de C.S. Lewis, Tolkien e GRRM, e eles foram minha completa inspiração para este livro.
O MUNDO DE QUATUORIAN estava muito latente em mim. Às vezes eu brinco de dizer que a obra se escreveu sozinha, pois embora eu tivesse feito um planejamento sobre a história, muitas coisas mudaram seu rumo de forma involuntária... muitos personagens também me desobedeceram e escolheram seus próprios caminhos...rsrsrs. Eu lancei uma primeira edição independente em 2016, e esta foi resenhada por vários blogs literários, recebendo avaliações muito positivas, o que me deixou bastante animada. Acabou chegando na editora Mundo Uno, que decidiu me publicar. Estivemos trabalhando o livro durante uns seis ou sete meses, para aprofundar alguns personagens, explicitar melhor alguns conceitos e cenas, e decidiu-se dividir a obra em dois. Enfim, foi lançado o primeiro volume na Bienal do Livro RJ -Vol I - Cheiro de Tempestade, e a projeção é que em 2018 lancemos o Volume II – O Retorno do Imperador.

6) Cristina, você teve alguma preocupação por criar uma obra mais voltada para o público juvenil? Por que escolheu esse público?
Não escolhi... aconteceu tão naturalmente... talvez seja meu estilo, minha linguagem. Depois a obra foi enquadrada como fantasia juvenil que atinge também os adultos. Que ótimo, pois então posso trabalhar com um público que goste de fantasia até os 99 anos de idade! rsrsrs

7) Conte para nós um pouco sobre o enredo de ''O Mundo de Quatuorian'', que também esteve na Bienal do Rio esse ano.
A história se passa num mundo totalmente novo e fantástico, com um sistema astronômico próprio, uma forma específica de medir o tempo; o mundo tem animais e seres com poderes especiais. Há um Imperador que precisou guardar-se para a posteridade. Mais de mil anos separam este Imperador dos jovens protagonistas... eles serão unidos por uma profecia. Há também uma revelação importante guardada até um momento futuro em que a profecia anuncia o retorno do Imperador milenar. O que está escrito no Códice dos Mestres é de importância vital para que Teriva, Vinich e Julenis salvem as quatro terras do mal que se instalou em Quatuorian. No livro conto a história dos protagonistas desde a infância até a juventude. Reviravoltas, surpresas, aventura e emoção estão presentes o tempo todo neste livro.

8) Em uma reportagem do jornal O Fluminense, vi que ''O Mundo de Quatuorian'' teve uma boa parte escrita na travessia da barca Rio-Niterói e catamarã de Charitas. Quais outras curiosidades você pode nos contar sobre a obra?
Tenho várias curiosidades pra contar!
·         VULCÕES - Os vulcões são parte muito importante na história, então vários termos e nomes são de origem havaiana;

·         As cavernas subterrâneas foram inspiradas numa cidade real, a cidade subterrânea de Derinkuyu, escavada em rocha vulcânica.

·         O Castelo de Tugevus, tomado por Vorten (logo no início da história), assim como os demais castelos, são inspirados nas formações decorrentes de fenômenos vulcânicos da Capadócia, “incrementados” com construção acessória exterior (escadas, plataformas e varandas de madeira).

·         MAPA - Primeiro desenhei o mapa do mundo. Depois comecei a escrever. As distâncias percorridas em viagens foram cuidadosamente baseadas na capacidade do meio de transporte (caminhada, cavalo).

·         A VIAGEM DOS ASPIRANTES - No caso do caminho percorrido pelos Aspirantes, considerou-se a distância que precisaria de 21 dias para ser percorrida a cavalo. Durante a viagem, são aprendidas e avaliadas as qualidades do aspirante a Guardião. Maron avalia esses candidatos na caminhada ritualística onde são postas à prova as características essenciais do guardião: humildade, lealdade, persistência, honra, bravura, coragem, dentre outras virtudes.

·         POMBOS-CORREIO - Com auxílio das informações fornecidas por email pela Federação Columbófila Brasileira, pude inserir os pombos-correio na história. Os pombos sempre voltam para o pombal onde nasceram. Antigamente, os pombos eram levados de uma cidade para outra e estes eram mantidos presos. Quando se queria enviar mensagens, os pombos eram soltos e retornavam à sua cidade origem (o pombal onde nascera). O sistema se baseava em trocas de pombos entre cidades vizinhas.

·         DOMO DE ZALI - O Domo de Zali, local onde acontece o ritual “Puro-Vitae”, é descrito baseado nas características de vulcões inativos, onde há formação sazonal de lagos e onde podem existir gases nocivos à vida.

·         SELAS, o “Kátigo” - O simpático personagem é totalmente inspirado no incrível “Armadillo Lizard” (Cordylus cataphractus), lagarto que costuma enroscar-se em sua cauda quanto sente alguma ameaça.

No livro, ele é amigo inseparável de Teriva e anda em seu ombro.



·         ALAMEDA DULCÍVIA - Uma Alameda totalmente bucólica, quase mágica, que isola seu transeunte do tempo exterior. No livro, Salek e Teriva andavam pela Alameda Dulcívia e não perceberam que um temporal se aproximava. A Alameda liga Probatus a Jucundus. Flores e frutos dão-lhe um permanente aroma adocicado, repleto de pássaros e abelhas que ali têm seu paraíso.


          SEMENTES DE MACIEIRA - As características para plantio de uma macieira narradas no livro são verdadeiras. A semente desta árvore necessita de frescor e temperaturas baixas para germinar.  A macieira da história é divina e mágica, por isso, dá frutos “dourados” e seu tamanho é gigante, com largo tronco.

·         INSPIRAÇÃO MEDIEVAL - O MUNDO DE QUATUORIAN tem inspiração pré-industrial com características de nosso mundo medieval. No entanto, na maior parte do livro, a história se passa em um tempo de paz onde não há cavaleiros, lutas de espada ou sangue.

·         ORGANIZAÇÃO DE QUATUORIAN - O MUNDO DE QUATUORIAN tem estrutura e moedas próprias, e as unidades de medição de tempo, distâncias e medidas em geral são diferentes das do nosso mundo real.


9) Fale um pouquinho sobre a sua rotina para escrever uma obra, quanto tempo você demora para finalizar um livro, se tem alguma mania, etc.

Escrevo normalmente cedo, antes que todos de minha casa acordem (rsrs) ou à noite quando “as crianças” foram dormir. É um processo de imersão e eu sei que fico fazendo caras e bocas, rindo, falando com a tela do computador... e é assim que a coisa flui. Preciso de um local silencioso... não consigo escrever com música ou barulho de TV.

Não há um tempo definido para que escrevamos uma obra grande ou um conto. Tudo depende do fluxo criativo, do tempo que temos para mergulhar na história etc. No caso de O MUNDO DE QUATUORIAN, considerando a pausa que tive por causa do problema com o braço, posso dizer que o tempo útil de trabalho na obra foi de dois anos, pois fiz dezenas de revisões e reescritas de trechos.

Uma mania? Ler rapidamente cada parágrafo que escrevo num idioma do tipo ta-ra-nan, ta-ra-nam, ta-ra-nam. Com entonação.

10) Sabemos que viver de escrita no Brasil ainda é muito difícil. Como você enxerga essa realidade? E que recado pode dar para os escritores iniciantes?

Particularmente, não tenho planos de viver de escrita, mas sim de viver escrevendo, pelo prazer do texto, da narrativa, de compartilhar mundos e histórias com os leitores. É isso que me move.
O que vejo é que o Brasil ainda é um pouco preconceituoso com o gênero fantasia de autor nacional, mas sinto que isso tem mudado gradativamente e há uma série de novos autores fantásticos ganhando seu espaço. Graças a Deus contamos com o apoio essencial dos blogs e canais literários para a disseminação da obra!
Sobre as editoras... ainda há muita dificuldade em fazer chegar o original às mãos do(a) editor(a), e sinto que o mercado do agente literário precisa crescer mais para facilitar a vida tanto dos autores quanto das editoras.

Quanto a dicas para os escritores iniciantes:
  • ·        Dê tempo ao tempo. Pressa só atrapalha o escritor.
  • ·       Leia muito, e de preferência gêneros variados. Não se iluda de achar que pode ser um bom escritor sem ler. Não pode. Mesmo.
  • ·     Leia este livro também: “Sobre a Escrita -  Stephen King”. Leia mesmo. Isso ajudará muito você.
  • ·  -   Saiba aceitar críticas. Use leitores beta. Outros olhos conseguem ver coisas que estão ocultas ao autor. O distanciamento crítico e a opinião de cabeças diferentes ajuda muito no seu crescimento como escritor.
  • ·         Guarde o que você escreveu por um tempo na gaveta e pegue alguns meses depois. “UAU” é o que você dirá ao ver quanta coisa pode e precisa ser melhorada, e só o distanciamento temporal permitirá a você enxergar.
  • ·         E para fechar, reitero o primeiro conselho: Leia muito, e de preferência, gêneros variados. Não se iluda de achar que pode ser um bom escritor sem ler. Não pode. Mesmo.

11) E quais são os seus próximos projetos enquanto escritora?
Estou em fase de preparação/revisão do texto para o segundo volume de O MUNDO DE QUATUORIAN. Estou escrevendo também uma fantasia juvenil com situações que ocorrem em mundos paralelos. Deverei terminá-la assim que concluir o trabalho de texto para o lançamento de O MUNDO DE QUATUORIAN Vol II – O Retorno do Imperador (2018).

12) Como foi sua experiência na Bienal do Rio? Conte sobre seus dias lá e como se sentiu ao receber o carinho de seus leitores.
Está sendo uma coisa nova para mim, e que experiência MARAVILHOSA! Os leitores que visitam o stand à procura da obra são muito educados e carinhosos comigo! Eu fico até emocionada em falar disso. É altamente gratificante esse contato. E é muito bom ver um leitor com seu livro em mãos empolgado para ler a obra.



13) Cristina, fico muito feliz pela entrevista. Eu, Vitor, em nome de toda a equipe ELEA, agradeço a você pela participação. Abraço e muito sucesso!

Vitor, eu só tenho a agradecer o Entrelinhas e Afins  pela oportunidade de contar um pouquinho dessa magia que é poder compartilhar uma história com os leitores na forma de um livro! Obrigada por esse espaço, pelo apoio e pela oportunidade!

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