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31 outubro, 2017

115 anos de Drummond: Como não se encantar por esse itabirano?

''No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.''

            Provavelmente, você já conhecia esse poema, não é mesmo? Ele é de Carlos Drummond de Andrade, que, há exatos 115 anos, no dia 31 de outubro de 1902, nascia na cidade de Itabira, em Minas Gerais. Naquela época, ninguém fazia a mínima ideia de que esse nome se tornaria um dos mais importantes da Literatura brasileira. Drummond destacou-se na segunda fase do movimento Modernista brasileiro, ao lado de outros escritores como Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. Dentre suas principais obras, estão ''A Flor e a Náusea'', ''Poema de Sete Faces'', ''Quadrilha'', etc.



            Sem dúvidas um de seus textos mais conhecidos, ''No meio do caminho'' (apresentado acima) expressa os obstáculos encontrados nas vidas do eu lírico, que os comparava a pedras. Cansado desses problemas, o eu lírico também revela que eles podem significar algo importante e marcante. Por esse e outros motivos, essa obra é tão conhecida e parodiada, muitas vezes por pessoas que não compreendem bem seu significado, já que acreditam que Drummond retratou uma rocha real em seu caminho.



            Apesar de ser bastante conhecido pela sua vertente poética, esse ilustre escritor também apresentou obras em prosa, sobretudo crônicas. Algumas deles estão reunidas no livro ''Boca de Luar'', publicado originalmente em 1984. Utilizando uma linguagem simples, de fácil compreensão, e abordagem de diversas temáticas, desde o existencialismo até questões sociais e amorosas. Todas as crônicas reunidas nesse livro conseguem envolver seu leitor. Umas alcançam um determinado tipo de público, outras, outro público. Como de costume, a obra também possui textos que evocam as memórias, característica típica de Drummond, com ''Milho cozido'' e ''Coisas lembradas'', por exemplo. Porém, em comum, todas as crônicas utilizam da linguagem e do vocabulário como elementos tão importantes quanto os personagens, aproximando ainda mais os leitores das situações apresentadas.


            Para representar esse livro que reúne crônicas tão primorosas, escolhi um fragmento retirado de ''A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados'', que se inicia com um casal trocando apelidos inusitados:

''Diálogo aparentemente louco, mas que dois namorados de imaginação mantêm todos os dias, com estas ou outras palavras igualmente mágicas. Não inventei nada. Apenas colecionei expansões ouvidas aqui e ali, e que me pareceram espontâneas, isto é, ninguém deve ter preparado antes o que iria dizer, de tal modo as palavras saíam entrecortadas de risos, interrompidas por afagos, brotando da situação. O amor é inventivo e anula os postulados da lógica. Ele tem sua lógica própria, tão válida quanto a outra. E os amantes se entendem sob o signo do absurdo – não tão absurdo assim, como parece aos não-amorosos. Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de “meu bicho-do-pé” e receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento.''

            Nesse pequeno trecho, podemos perceber mais uma vez a capacidade incrível de Drummond de criar um diálogo ainda que sutil com o leitor, criando uma noção de proximidade com ele.

            Embora tenha publicado uma grande quantidade de obras em prosa, Drummond teve maior destaque na poesia, abordando temáticas sociais e até metafísicas. No poema ''Confidência do Itabirano'', ele traz lembranças de sua cidade natal, a mineira Itabira, localizada no Quadrilátero Ferrífero. Nele, o eu poético expressa a maneira como a sociedade e a sua cidade influenciaram para a sua formação enquanto indivíduo, tornando-o mais sério, mais sofrido, como nesse excerto:

''Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!''

            Outro livro que reúne grandes obras desse escritor é ''Simplesmente Drummond''. Esse livro foi publicado em 2002, declarado pelo então presidente como ''Ano Nacional Carlos Drummond de Andrade'', celebrando seu centenário. Quinze anos depois, algumas cidades e instituições homenageiam o poeta. No livro, estão reunidos conhecidos poemas seus.



            Existem muitos outros poemas preciosos de Drummond. Por isso, não é válido colocar  todos esses aqui. Caso queira conhecer mais alguns poemas, clique AQUI para conferir textos como ''José'' e ''Poema de Sete Faces'', que deveriam ser lidos por todos os amantes da poesia e até por aqueles que não gostam tanto do gênero. Como não se encantar por Drummond?



Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.

(Carlos Drummond de Andrade)






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