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02 outubro, 2017

CARTAS PARA RUBEM: Escuta essa, Braga!

             É, Rubem! Muita coisa mudou desde que você morou na velha casa abençoada pelo pé de fruta-pão, vivemos outros tempos ... Tempos líquidos, que ao meio dia, num sol escaldante, em plena 25 de Março – uma espécie de Avenida Brasil de Cachoeiro – projetos de zumbis rondam pelas ruas em busca de qualquer vítima para atacar. Sem medo algum!


                Você com certeza iria sentir falta das irmãs Teixeiras, mesmo elas pegando no seu pé e dos moleques da rua, as Teixeiras estavam sempre ali, vigiando qualquer passo e movimento da vizinhança. Ah, Teixeiras, saudades dos olhares atentos de vocês.

                Confesso que hoje em dia seus olhos de corujas espiãs presenciariam muitos fatos. E com certeza seriam mais úteis que qualquer geringonça moderna instalada por aí, afinal muitos desses equipamentos são apenas enfeites. Se funcionando elas não causam receio, imagine quebrada, aí mesmo que “Uma Noite de Crime” aconteceria, com bandidos reais e sem tempo para ensaios. Tudo num piscar de olhos, um passo em falso e sua bolsa, carteira, celular, VIDA já foi levada.



                Rubem, o medo varreu a cidade, não existe mais lugar seguro na nossa cidade secreta. Que dizer, acho que nossa cidade já deixou de ser secreta há séculos. Nem te conto: semana passada, helicópteros sobrevoavam o céu, enquanto dezenas de viaturas percorriam a nossa “nada secreta Cachoeiro” atrás de facções. Isso mesmo, facções! Pra você se dar conta no caos que estamos vivendo. O perigo percorre desde igrejas, escolas, pontos de ônibus até centros comerciais – estamos todos indefesos.



                E outra, não tem o seu querido rio Itapemirim? É, aquele que você adorava observar de sua varanda, aquele que em dias de tempestades adentrava sem pedir licença alguma, no seu quintal. Então, a constante poluição o consome – ele está velho, triste, amarronzado, igual aquelas pessoas doentes em estado terminal. Não tem mais brilho, só lhe resta a solidão das aves ribeirinhas e dos pescadores, que ainda utilizam o Senhor Rio como fonte de sustento.

                Lembro-me, que vocês sempre prendiam Zig Braga quando sua mãe, Dona Raquel, frequentava à missa, aos domingos. Se fosse atualmente, Zig Braga seria a melhor segurança pra sua mãe, afinal aquelas pontes, principalmente a do Liceu, se tornaram santuários da impunidade, constantemente um cidadão de bem se torna mais um dado numérico na planilha policial.


                Falando no Senhor Rio, esses dias mesmo mais um foi achado às margens dele, boiando sem rumo, sem identificação, sem lenço e sem documento fazendo-me lembrar de um “João da Silva” como você mesmo dizia “Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte”. Rubem espero que na próxima vez que nós mantivermos contato eu posso lhe contar sobre as “bonanças” de nossa cidade. Mas, que fique registrado: Cachoeiro agora é a “capital nada secreta”, nada segura, nada alegre, nadica de nada.

Fotos da jornalista, amiga e fotógrafa, Dayane Hemerly


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