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15 março, 2018

O menino ensolarado


      Todo dia era o mesmo percurso. Acordava sorrindo para as margaridas, que enfeitavam o canteiro de sua janela, ia para escola, ensolarando por onde passava. Dava um “oi” pra vizinha adoentada; que sempre ficava na janela esperando ele passar, cumprimentava a menina da rua de cima, que levava todo (santo) dia seu vira lata para passear. Entrava na padaria, acenava para o padeiro, ria para a balconista e saia feliz para escola; mesmo passando o olho nas manchetes jornalísticas do dia.


            No meio do caminho, dava “bom dia” para as crianças que iam para escola, para os colegas que lhe acompanhavam a atravessar a ponte e até sorria para os “insorrivéis”, num gesto de carinho, mas também corajoso, de demonstrar simpatia para aqueles, que muitos entortam a cara. Tudo naturalmente.

            Num dia desses cinzentos e sem graça acordou de modo diferente: não queria sorrir. Ele tinha medo, preferia não se expor naquele dia. Mas, precisava ir à escola. Fechou a cara, guardou o sorriso e partiu para o colégio.

A vizinha adoentada esperou o seu sorriso, mas ele passou de cabeça baixa e seguiu adiante, quando viu a dona do cachorro também fugiu dela, não abrira seu sorriso para ninguém. Passou pela padaria, quis comprar um sonho, mas apenas passou de longe, sem falar com o padeiro e com a balconista. Até os “insorrivéis”, que já esperavam o sorriso de “bom dia” do menino ensolarado, estraram a cena, e por mais que evitassem qualquer expressão de sentimentalismo barato, sentiram falta do sorriso. E assim os dias foram ficando acinzentados ...

Foi quando a vizinha do garoto ensolarado piorou, foi levada às pressas para o hospital; parecia que o quadro clínico da senhorinha tinha agravado. A menina, que já não mais passeava com seu cachorro, por coincidência, era esposa do padeiro, que numa dessas rotineiras discussões, acabaram desfazendo os laços matrimoniais. O padeiro, que fazia os melhores sonhos da região, acabou por “incoincidência” de um dia acinzentado perdendo sua vida ...

Foi quando um dos “insorrivéis”, já carente de um sorriso, invadiu a padaria, num ato rápido e trágico, atirou contra o padeiro, que havia defendido a balconista. Enquanto, o ladrão, carente de sorriso, atravessava a rua, fora atropelado por uma ambulância. A mesma ambulância que trazia de volta a senhora adoentada para a casa; a vizinha do garoto ensolarado. Com o impacto, a senhorinha não aguentou. O “inssorivel”  clamou por perdão, mas ninguém o ouviu, assim como ninguém ligava para ele, ninguém o cumprimentava. Ninguém o acudiu. Prenderam-no e jogaram-no num camburão.


Ficaram sabendo depois, que aquele mesmo homem ficava ali todas as manhãs esperando o menino ensolarado, apenas para ganhar um “bom dia” e evitar que ele mesmo cometesse uma atrocidade. Ficaram sabendo, que o padeiro e sua esposa brigavam todo dia, mas por causa da simpatia do menino; o padeiro se acalmava e usava sua energia confeitando os doces mais incríveis da região. Ficaram sabendo também, que a senhorinha adoentada, tinha câncer e que os médicos diziam que a “hora” dela já tinha chegado, mas por um mistério divino ela ainda vivia.



O menino ensolarado também ficou sabendo de todas essas histórias, muito triste já não tinha mais forças para sorrir. Mas, lembrou-se daqueles que não riem, daqueles que não são abraçados, daqueles que não são amados e resolveu deixar o ego inflamado de escanteio. Voltou a sorrir, resolveu que todos tinham direito a um “bom dia” ou até mesmo um sorriso amarelo e prometeu que daquele dia em diante ninguém, jamais, ficaria sem um sorriso. Saiu pelo bairro ensorrisando por aí, ensolarando a vida de muitas pessoas.


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